Cônsul da Alemanha em Lagos acha que há potencial no Algarve, mas falta de investimento

Jun 26, 2017

Alexander Rathenau, o novo cônsul honorário da República Federal da Alemanha no Sul do país, lamenta a falta de empreendedorismo no Algarve e diz que a região tem potencial para atrair jovens alemães.
Em entrevista ao Sul Informação, Alexander Rathenau diz que a maioria dos alemães no Algarve são reformados, algo que o relaciona com «um problema em toda a Europa: que não há muitos jovens que se atrevam a sair para o estrangeiro para viver e trabalhar lá».
«Há sempre áreas muito interessantes, advogado, jornalista ou consultor fiscal, nós no Algarve temos apenas um consultor que fala alemão. As pessoas não têm a coragem de ir para o estrangeiro», acrescentou.
Mas se os alemães mais jovens não saem muito do seu país, Rathenau lamenta, por outro lado, a falta de empreendedorismo na região algarvia. «Há pouca gente que queira investir em novas tecnologias, por exemplo. Concentra-se tudo no turismo. E quem trabalha nessa área, trabalha durante uns meses e depois, no resto do ano, trabalham em empregos de baixo rendimento».
Também para os alemães que crescem no Algarve, o cônsul considera desejável que continuassem a viver aqui. A maioria, porém, regressa à Alemanha, à procura de melhores oportunidades, «o que é uma pena, porque normalmente nem sequer é verdade».
«Reparo que muitos portugueses [emigrantes] que têm filhos na Alemanha, de segunda ou terceira geração, tinham uma imagem muito negativa de Portugal e nunca queriam sair de lá». Mas quando os filhos vêm ao país dos seus pais, ficam perplexos: «Isto é tão moderno, Portugal tem muitas coisas que são muito progressivas».
O próprio cônsul, que nasceu na Alemanha, mas veio para Portugal com seis anos, identifica-se mais com a região do que com o seu país de origem. «Se usasse a palavra alemã “Heimat” [terra natal/sítio onde se sente em casa] seria o Algarve».
O novo cônsul honorário considera que, desde a abertura do consulado em Lagos, tem havido um bom feedback dos cidadãos germânicos no Algarve. «A maioria dos alemães vive, sem dúvida, no Barlavento, entre Carvoeiro e Sagres», referiu o Rathenau, acrescentando que o mesmo acontece no Alentejo, onde muitos alemães escolheram a zona costeira para viver. Por isso mesmo, para Rathenau, Lagos é melhor do que Faro para instalar o consulado, por questões de proximidade. «Naturalmente que há sempre alguém de Tavira ou Vila Real de Santo António que diz “agora tenho de viajar tão longe”, mas eu acho que é justo porque é melhor para a maioria».
Esta é a primeira vez desde o 25 de Abril de 1974 que o Consulado está sediado em Lagos. «Não há uma regra oficial que diga que Lagos tem de ter uma representação diplomática e que o cônsul tenha que trabalhar lá. Se eu sou o cônsul honorário, decido eu onde trabalho. Claro que a embaixada tem de aprovar dessa decisão, se eu trabalhasse algures no Alentejo profundo, seria mau, porque todos teriam de viajar para lá. Há um novo cônsul, que vive em Lagos, portanto o consulado fica sediado em Lagos também».
Não há números oficiais, mas Rathenau estima que haja no mínimo 6000 alemães residentes no Algarve. «A questão é: Como definir “residência”? Provavelmente, serão mais de 10 mil, se incluirmos aqueles que não se registaram, ou que passam alguns meses na Alemanha».
A jurisdição do Consulado abrange os distritos de Faro, Beja, Évora e Setúbal, em que haverá «certamente uns quantos milhares» de germânicos. «Afinal, os nossos clientes também são aqueles que vêm ao Algarve como turistas, o que, durante os meses de Verão, representa um acréscimo de vários milhares de pessoas que poderão potencialmente ser nossos clientes».

Tomada de posse, do Cônsul Honorário da República Federal da Alemanha no Algarve, Alexander Rathenau

Quanto à integração dos seus compatriotas em Portugal, Alexander Rathenau considera que «muitos alemães vivem isolados e só se encontram com alemães». Mas a culpa, segundo ele, também é dos portugueses, porque «não são tão abertos, diretos, para convidar um alemão para casa ou incluí-lo nos seus amigos mais íntimos. Até um alemão e um português conseguirem construir uma amizade podem passar anos e, mesmo assim, será uma exceção».
A principal barreira é a língua: em especial para quem vem na idade da reforma, aprender uma nova língua é difícil. Outro problema «é que muitos portugueses preferem responder em inglês, mesmo quando se tenta falar português. Naturalmente que assim não há comunicação em português».
Mesmo assim, o cônsul acha que há mais interesse em aprender a língua por parte dos alemães do que dos ingleses, por exemplo. «Os ingleses comportam-se como se estivessem em Inglaterra, falam imediatamente inglês, sem sequer perguntar se a outra pessoa percebe. Os alemães perguntam primeiro “Do you speak English?, Eu também sei falar um pouco de português”».
O Consulado da Alemanha no Algarve existe desde 1752. Há investigações que concluem que o consulado alemão é a mais antiga representação diplomática em Portugal. «Comerciantes de Hamburgo fundaram no século XVIII o consulado alemão em Faro. Naturalmente, a maioria do comércio na altura era feito por via marítima e Faro era uma cidade portuária importante». Nesse século, chegou a haver três consulados, em Vila Real de Santo António, Faro e Lagos. Naquele tempo, era importante ter representantes diplomáticos nos portos», para «garantir condições de segurança para as mercadorias, porque havia muitos piratas vindos do Norte de África que dificultavam a atividade dos comerciantes».
«Hoje em dia, o Consulado tem naturalmente funções muito diferentes», lembra Rathenau. «Tratamos de muitos assuntos notariais, reconhecimento de assinaturas, reconhecimento de endereços». O Consulado emite também passaportes e passaportes de viagem. «Se estiver aqui como turista e perder a sua carteira com os documentos que o identificam, podemos emitir um documento de identificação imediatamente, para que possa regressar à Alemanha».
Ao contrário de cônsules gerais, que enveredaram pela carreira diplomática, um cônsul honorário tem certas restrições. «Fui nomeado por ter crescido na região, porque conheço as condições e porque não é viável para a embaixada estabelecer um consulado que não seja apenas honorário». Um cônsul honorário não é assalariado, mas pode ter vencimentos através de taxas que pode exigir para certas ações. Mas o que um cônsul nessas condições ganha não cobre as despesas. «Significa que tenho de pagar grande parte das despesas do meu bolso», revela Alexander Rathenau.
Em relação aos alemães que vivem um estilo de vida alternativo, principalmente no Alentejo e na serra algarvia, o cônsul compreende «completamente esse estilo de vida, que muitas vezes não tem nada a ver com falta de dinheiro, é uma opção pessoal». A relação entre essas comunidades e a população portuguesa é boa, e não considera os estilos de vida se distingam muito. «Eu tenho amigos portugueses que vivem no Alentejo profundo, que também têm uma casa simples, de taipa, sem água, só água do poço».
«Houve uma altura, há cerca de um ano, em que o assunto das crianças problemáticas estava bastante presente, essas crianças que eram acolhidas justamente por essas famílias hippies», lembra. O cônsul admite que houve alguma crítica por parte dos portugueses, na justiça, mas também nos media, «simplesmente porque essas crianças poderiam não aprender as coisas importantes para a sua educação. Mas isso também já não tem muita pertinência e a justiça já tem estado a tratar disso».
Fonte:   sulinformacao.pt
Autor:    Marc Gorzelniak